Volume preparatório
OS TEMPOS DO SUJEITO DO INCONSCIENTE
A psicanálise no seu tempo e o tempo na psicanálise
Apresentação
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Heteridade 3 fazia eco em 2003 às Primeiras Jornadas Européias da Internacional dos Fóruns que ocorreram em Madrid em outubro de 2002 tendo como título: O tempo da psicanálise. Sai agora este “volume preparatório” no qual se reúnem os textos que deverão ajudar a nos colocarmos na rota do V Encontro da Internacional dos Fóruns; trata-se de um novo retorno, nunca igual ao anterior, como numa análise, para cercar melhor aquilo que só existe, talvez, para o homem, o tempo, e a dialética aberta entre o instante e a duração, entre a atemporalidade e o dizer... tudo isso num quadro especificado, o da psicanálise.
O CIOE, que tem a responsabilidade da publicação deste volume, espera que sua leitura ofereça a todos a oportunidade de se prepararem, de antemão, para o Encontro.
I
Há quase um século, Freud situava a psicanálise na história da humanidade na série de “graves humilhações a seu orgulho ingênuo” (Freud, 1971 ). Hoje, não nos perturba saber que a Terra não é o centro do universo, que a primazia do homem sobre a Terra não provém de nenhum privilégio em relação a sua própria origem... o próprio discurso da ciência trata de suturar os traumatismos que seu saber pôde produzir. O inquietante efeito de saber que o “eu”, sobre o qual se sustentava o próprio pensamento, era apenas um véu, uma casca que ocultava suas próprias razões, esta inquietude não vai poder ser dissolvida porque o protetor desse saber, a psicanálise, tem como objeto justamente o buraco, pois se trata de um saber que opera sobre essa ferida deixando-a a descoberto em vez de suturá-la. A “incongruidade” da Psicanálise com a Ciência, neste sentido, está garantida. Este desconforto existe desde sua origem, e subsistirá por tanto tempo quanto a psicanálise perdure.
A questão em relação ao tempo reside para nós, psicanalistas, em poder discernir qual é “realmente” a contribuição da psicanálise para a humanidade. Metodologicamente, a questão pertinente não é muito complicada: em que a psicanálise mudou a “humanidade”? Sabemos que a ciência introduziu nela a possibilidade de seu aniquilamento, não somente pelas guerras ou pelas armas acumuladas para este fim, mas também pelo desequilíbrio manifesto produzido na atmosfera pelas emissões de gases-escória que produz; veremos se ela será capaz também de suturar este buraco. A psicanálise introduziu, parece-me que pela primeira vez na história da humanidade, a perda da inocência, dito de outra forma, a possibilidade de um “verdadeiro” ateísmo. Ou, segundo as palavras de Lacan: “Isto é o grande segredo: Não há Outro do Outro ”. Que este saber não produza apenas cínicos é um desafio para a própria psicanálise e para nós na EPFCL.
II
Se a questão do tempo é fundamental para nós, ela adquire ainda um valor suplementar pelo fato de ser o tempo da sessão, um traço unário – se me permitirem esta expressão – sobre o qual se fixou a significação da diferença, um corte na história da psicanálise que faz com que haja agora lacanianos e não-lacanianos. E ela é fundamental, além disso, porque a concepção do tempo determina, de algum modo, o que pode acontecer e, conseqüentemente, o que acontece entre uma entrada e uma saída, entre um início e um fim, pois é desse tempo que se trata.
No que diz respeito ao tempo da sessão, este deixa de estar sujeito ao cronômetro – tanto na sessão de duração variável quanto na sessão curta – para ficar sob a “responsabilidade” do analista. Este tempo será determinado por uma lógica subjetiva, relativa a um tempo simbólico, mas também por uma lógica “objetiva”, mais relativa ao real no temporal, na qual se trata ora de assinalar o momento em que o objeto ou seu vazio mostra a cara, ora o corte que propicia sua emergência. A conseqüência técnica de tudo isso, a troca do uso do tempo como muleta da lei pelo uso do tempo como elemento da estrutura terá constituído a contribuição “técnica” mais importante – talvez a única significativa – que terá sido introduzida na cura analítica depois do divã.
No que diz respeito ao tempo de uma análise, sustentamos a tese de um fim, mas também o tempo da emergência do desejo de analista e o tempo para o passe. Estes três momentos, o fim, a emergência do desejo do analista e o passe não são nem homogêneos nem contemporâneos; e pelo caminho, difíceis de sistematizar, ficam os momentos “cruciais” de viragem, de saída, de mudanças de analista... particulares a cada percurso, mas nem por isso menos importantes e interessantes para o saber que nos ocupa.
III
Diz-se – há um discurso que o sustenta – que a temporalidade atual é a da hipermodernidade, na qual o traço “ideal” do tempo é o imediato, o qual produz uma significação subjetiva de “consumidor impaciente ”. O prazer dos prelúdios, do caminho, é afogado pelo gozo do ato, da chegada, o que não deixa de ser paradoxal com o fato, senão crescente ao menos persistente, de uma “espiritualidade” e de uma busca daquilo que não se compra. Nosso “movimento” optou por fazer seu, como campo de operações, o campo lacaniano, que não é outro senão o campo dos gozos e dos discursos nos quais elas se sustentam hoje e aqui. É por isso que um Encontro Internacional sobre o tempo é, ainda, pertinente.
O que nos toca viver é um tempo em que o paciente, que poderá eventualmente tornar-se analisante, mostra-se antes, em muitas ocasiões, como um consumidor, cuja temporalidade vai da possessão de um “gadget” através do qual ele pensa gozar até o seu consumo, isto é, até sua conversão em resto, quando um outro “gadget” ocupará seu lugar. Isso é o que existe.
A atemporalidade do inconsciente exige um tempo oposto ao do imediato para se mostrar. O encaixe da psicanálise, então, não é fácil. Nunca foi, mas durante algum tempo o desejo pôde estar na moda – nem que fosse revestido de ideais dos quais só resta o desencantamento. Se o desejo tem sempre a falta como parceira e se seu tempo é o de um percurso, o gozo faz sempre Um, e seu tempo é o do instante. Talvez seja por aí, pela reivindicação de um espaço para o desejo que a psicanálise adquire um novo valor subversivo e, assim, um lugar possível. Talvez seja este o contexto, o da subversão, no qual possamos discutir algumas coisas como o seu lugar nas regulamentações de psicoterapias ou sua situação em relação ao mundo da saúde. Se fosse preciso fazer uma comparação bélica, tratar-se-ia de precisar aquilo que, estrategicamente, pode ser mais útil à causa, se a guerra de guerrilhas ou a infiltração no campo inimigo... ou a combinação entre as duas.
IV
Finalmente, ”nosso” tempo, isto é, o dos Fóruns e sua Escola. Dez anos terão passado desde julho de 1998, tempo suficiente para fazer um bom “remanejamento” de nossas instituições, em função de suas condições para que a psicanálise possa ser sustentada pelos psicanalistas que elas acolhem, para que possamos avançar no caminho do saber que conseguirmos obter no passe, e para o desenvolvimento e transmissão da psicanálise no mundo. Algumas das variáveis das quais partimos já não são hoje as mesmas: não estamos mais no momento de fundação quando acentuar as diferenças em relação ao modelo do qual saíamos podia ser uma imposição lógica. Em contrapartida, estamos já no tempo de nossa Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano.
Não é este o espaço para os balanços e as novas propostas, mas sim o de anunciar sua possibilidade a fim de que a Internacional de Fóruns e sua Escola encontrem um novo equilíbrio entre o dinamismo de um “estado” constitutivo permanente e a estabilidade de instituições bem assentadas.
V
Para terminar, o tempo entre este volume e o Encontro em São Paulo, um tempo preliminar que tem uma finalidade dupla: avançar – como posto avançado – no percurso teórico por diferentes questões sobre o tempo e a psicanálise, mas, sobretudo, causar desejos de continuar com isso e, portanto, nos encontrarmos em julho no Brasil. E quanto mais numerosos formos, melhor será.
Ramon Miralpeix
Freud, Sigmund. Obras completas 18ª Conferencia. La fijación al trauma, lo inconsciente. Amorrortu Vol XVI
Lacan, Jacques. Seminario 6. El deseo y su interpretación. Clase 16. 8 de Abril de 1959
Lipovetsky, G. Hipermodernidad, la era en que vivimos. www.comunidadmujer.cl/0actividades04_gilles_nvo.asp
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